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Medo ou trauma de voar?

Você pode superar com EMDR.

Prof. Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri}
Sexóloga e Terapeuta de Casais e Famílias
Mestre e Doutora em Psicologia Clinica
Cj. 2108 da BCP

A necessidade de viajar de avião é cada vez mais presente em nossas vidas globalizadas por diversos motivos pessoais, culturais e profissionais, entre outros.

Há muitas pesquisas confiáveis que demonstram como viajar de avião é muitíssimo mais seguro que de carro ou de ônibus, só é menos seguro que elevador. Para cada 1,32 milhão de passageiros de avião, um pode morrer de acidente aéreo. Todavia essa informação não é suficiente para auxiliar pessoas que se recusam viajar de avião, ou sofrer muito quando necessitam fazê-lo.

Um primeiro tipo de medo de avião é o medo natural de experiência nova, medo da primeira vez, que geralmente ocorre em adultos acostumados a viajar em outros meios de transporte.
O segundo tipo é desenvolvido em pessoas que habitualmente voam e desenvolvem o medo, após alguma experiência intrínseca ao vôo (turbulências, decolagem ou aterrissagens difíceis) ou de desastres com familiares, amigos ou após notícias de graves acidentes.

Temos inúmeros medos (sentimento de ansiedade e agitação causado pela presença ou proximidade do perigo) ou fobias (um medo excessivo irracional e persistente de alguma coisa ou situação) e traumas (da língua grega: quebra, descontinuidade de uma experiência conhecida) pequenos e grandes que podem limitar nossas vidas: o de “voar” é um dos freqüentes. Entendo que traumas são quaisquer eventos que deixam impressões negativas em nossa consciência, como perda de pessoas queridas, abusos por violências físicas, sexuais e emocionais, desastres normais ou ocasionados pelo homem, fracassos sexuais, de trabalho, seqüestros, assaltos, incêndios, de posses, de lugares, de lares e de animais de estimação; ou outros geralmente subestimados no senso comum sobre o que seja traumático, como: humilhações, fracassos escolares, exclusões de grupos de jovens ou de adultos, ou sido muito baixo ou muito alto, ou ser obeso, com características físicas de serem especiais física ou psicologicamente, entre outros. Esses pequenos ou grandes traumas podem sobrecarregar nossas capacidades naturais de enfrentamento e elaboração e provocar o que chamamos de transtorno de estresse pós-traumático ou TEPT. Isso pode ocorrer porque essas lembranças perturbadoras podem ficar registradas inadequadamente na memória e poderão produzir: pensamentos obsessivos, pesadelos, pânicos, depressões, problemas na área do sono e da alimentação, problemas psicossomáticos, taquicardias, dificuldades respiratórias e uso abusivo de álcool e drogas, entre outros. Um desses problemas poderá ser o pânico de viajar de avião. Já nos dizia Dalai Lama que quando fomos picados por uma cobra, ficamos com medo até de uma corda enrolada.

É esperado que tenhamos medos e ansiedades quando vivemos uma situação que põe em perigo as nossas vidas. Todavia quando isso ocorre demasiada e recorrentemente e nos provocam excitações que nos limitam no dia a dia, pode estar no nível da fobia ou do pânico. Quando o passado invade o nosso presente e exacerba nossas reações emocionais, precisamos buscar ajuda que nos liberte.

Um medo exacerbado de viajar de avião pode não ter relação imediata com ter vivido direta ou indiretamente, experiências traumáticas com viagens desse tipo; mas com outras experiências que ficaram associadas.
O medo de voar é um tipo de fobia específica que atinge mais de 40% de brasileiros e que pode se apresentar em níveis amenos ou extremos. Pode gerar crises emocionais ou reações físicas como: palpitações, sudoreses, desconfortos abdominais, pressões no peito, vertigens, tumores, falta de ar e outros.
O uso de tranqüilizantes ou de álcool para poder enfrentar uma viagem de avião não é raro. E as pessoas o fazem para tentar evitar os constrangimentos costumeiros e com receios de prejudicarem suas vidas pessoais e/ou profissionais.

O medo de voar é complexo e pode estar ligado a outros medos como o da perda de controle, de sofrer mal estar e não ser socorrido, de ficar fechado e de acidentes, entre outros. Algumas pessoas começam a sofrer dias antes do embarque (angústia antecipatória), ou especialmente na decolagem ou no pouso.
Há várias possibilidades de ajuda profissional a pessoas presas no passado, quem têm seu presente dificultado. Por exemplo, no medo de voar. Uma dessas possibilidades é a terapia de EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing), um método novo e revolucionário para tratamento dos traumas psíquicos, que favorece que a pessoa ferida pela vida, restabeleça contato com sua força vital e recobrir sua própria capacidade auto-curativa e a importância de harmonizar seu corpo e sensações. Sua criadora, Francine Shapiro, grande pesquisadora norte americana, mostrou-nos a possibilidade de curar esses traumas pelo EMDR, que favorece o processamento de experiências negativas e congeladas, bloqueadas; Esse processamento ocorre no nível biofisiológico, e que facilita a emergência de nossas associações, compreensões e emoções. A International Society for Traumatic Studies reconheceu EMDR como terapia eficaz para o tratamento de traumas.

O EMDR é uma terapia revolucionária para superar a ansiedade, o stress e os traumas porque pode em 8 a 15 sessões de 90 minutos, eliminar alguns traumas, entre eles, o de viajar de avião. Em 2003 o National Institute for Metal Health informou que o tratamento de EMDR é superior ao Prozac para esses traumas.

Há pesquisadores em mais de 80 países em todo o mundo e terapeutas treinados em EMDR, inclusive no Brasil, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Curitiba e outros, e aqui, no Brascan Century Plaza, que é a autora deste artigo.

Programa de Ajuda Humanitária Psicológica

Prof. Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri
F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde Ltda.
PUC-GO
anamfzampieri@uol.com.br


RESUMO:
A autora apresenta conceitos sobre traumas e Transtornos de Estresse Pós-Traumático – TEPT (DSM-IV) relacionados às catástrofes naturais como fundamentação teórica para justificar o Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP), que vem desenvolvendo junto a uma equipe de psicólogos e voluntários de outras profissões, estes para os trabalhos de logística. Este trabalho tem parceiros fixos como a F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde de São Paulo, o Rotary Club de Butantã de São Paulo e a Pontifícia Universidade Católica de Goiás, por sua parceria em programa de pós-graduação de terapia psicodramática construtivista de casais, famílias e grupos, e outros como o CAEP de Goiânia, o INTERPSI de Brasília e o DELPHOS do Rio de Janeiro. O PAHP tem como objetivo trabalhar preventivamente com relação ao TEPT e colaborar efetivamente com forças de resiliência para o fortalecimento intrapsíquico e interpsíquico de pessoas danificadas por catástrofes naturais brasileiras. A autora esteve com este programa em Santa Catarina, nas cidades de Blumenau, Ilhota e Gaspar; no Maranhão, nas cidades de São Luiz, Rosário, Trizidela do Vale e Pedreiras; em São Paulo, em Santana do Parnaíba e em Niterói. Foram atendidas 6 mil pessoas de dezembro de 2008 a setembro de 2010 e capacitados 180 psicólogos das regiões afetadas por catástrofes, das cidades supra citadas.
Palavras-chave: catástrofes naturais, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP), prevenção, trauma, capacitação.

ABSTRACT: The author articulates the notions of Post-Traumatic Stress Disorder (DSM-IV) and its relationship with natural disasters as a theoretical foundation for the development of the Program of Psychological Humanitarian Help (PAHP), which has been developing with a team of psychologists and volunteers other professionals. This work has a steady partner the F&Z Consulting and Development in Education and Health Department, the Rotary Club of Butantã, São Paulo, and the Pontifical Catholic University of Goiás, for their partnership in the program graduate therapy of psychodrama constructivist of couples families and groups. The PAHP aims to work proactively with regard to PTSD and collaborate effectively with forces resilience to strengthen intrapsychic and interpsychic of people damaged by natural disasters in Brazil. Was this program in Santa Catarina, in the cities of Blumenau, Islet and Gaspar; in Maranhão, the cities of São Luis, Rosário and Trizidela Valley Quarries; in Sao Paulo, Santana Parnaíba and Niterói. 6000 people were treated in December 2008 to September 2010 and trained 180 psychologists in the regions affected by disasters in the cities mentioned above.
Key-words: natural disasters, post-traumatic stress, Program of Psychological Humanitarian Help (PAHP), prevention, trauma, training.

Quais são os mecanismos fisiológicos e psicológicos usados para detectar, responder e recuperar eventos altamente estressantes? Esta é uma grande busca de todos nós, os psicólogos que trabalham com a psicotraumatologia, que é o conjunto de estudos do estresse traumático. A psicotraumatologia surgiu de um ramo da medicina: a cirurgia do trauma, com Donovan em 1991. Atualmente, integra estudos do estresse traumático, a traumatologia, a vitimologia, os estudos dos traumas por violações e agressões sexuais, os estudos dos sobreviventes do holocausto e os estresses traumáticos. Os primórdios deste campo são encontrados em 1965, quando médicos como Veith (1965) iniciaram suas publicações sobre a histeria. A partir de Ellenburger, em 1970, publicaram-se os principais sintomas como: flashbacks, dissociações e sobressaltos, antes considerados obras dos deuses, do demônio e dos espíritos, nessa ocasião, vistos, sinais de histeria.
No Hospital La Salpetrière, de Paris, um famoso estudioso, Jean-Martin Charcot (1862), foi o primeiro a retirar da doença psicológica e mental as explicações divinas e espirituais.
Nos Programas de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP – que fazemos desde 2008, ainda encontramos pessoas que explicam o sintoma, pós-tragédias, especialmente as dissociações, como coisa do demônio ou espirituais. Como exemplo temos a narrativa de Lúcia, nome fictício de uma desabrigada de Rosário, com 62 anos, no Maranhão, que disse:

“… foi tão braba a enchente que os espíritos saíram da terra… os maus ficam lá no fundo… na lama tudo ficou misturado… bicho, gente, espíritos… e essa daí… a vizinha biruta… os demônios ficaram no corpo dela… porque ela quase se afogou… bebeu água de espírito mau… por isso ela falou que não sabe onde está… neste abrigo a cabeça dela tá que é só espírito ruim fazendo confusão… eles fazem ela gritar de noite, e fica assustada… coitada! …”

Importante estudioso de traumas, o psiquiatra argentino Dr. Moty Benyakar (2005) cita Figley, que em 2001 publicou Origins of Traumatology and Prospects for the Future, que oferece estratégias para ajudar as pessoas traumatizadas a mudarem e libertarem-se de seus sintomas.
Quero aqui refletir sobre o cuidado que nós, os psicólogos, devemos ter em não nos limitarmos apenas aos aspectos observáveis dos eventos catastróficos ou traumatogênicos, bem como aos sintomas, especialmente do chamado Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT, (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, DSM – IV), mas também às forças e ao crescimento de pessoas que vivem experiências potencialmente traumáticas. Precisamos observar como circunstâncias internas e externas das pessoas e de suas redes sociais, podem constituir as forças que chamamos de resilientes, pois, após a superação trazem “empoderamento” às vítimas de catástrofes, por exemplo.
Vejamos esta narrativa de Suely, nome fictício de uma das abrigadas, em 2008, em Blumenau, Santa Catarina:

“… hoje a idéia de voltar a ter uma casa nossa, onde a gente possa ter nosso jeito de viver, de ter as nossas idéias de criar filhos, de ter Deus no coração… eu valorizo tudo de outras formas, entende? … eu era muito crítica, preguiçosa e não sabia dar valor ao que tinha… meus filhos, os três que tenho… perdi um… a água levou… ele vai me dar forças para luta por nossa família.”

O trabalho do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP) nasceu desta concepção: de nossa crença na busca do desenvolvimento de forças internas dos desabrigados e danificados de catástrofes naturais, para a construção de entornos de redes sociais e emocionais mais resilientes.
Baseamo-nos em teorias e estatísticas de modelos que permitem a prevenção e tratamento de traumas, eventualmente causados por catástrofes naturais ocorridas no Brasil, desde 2008.
Já em 1900 a.C., nos primeiros livros de medicina, nos chamados Kunyus Papírus, no antigo Egito, há descrições de “reações histéricas” nos soldados.
Antes de Wolpe (1958) já diziam que logo após uma traumatização ou sensibilização, onde a pessoa aprende a associar o evento traumático com o sentimento subjetivo de estresse; se houver a oportunidade de ocorrer o distresse, eliminar-se-á o estresse e, assim, psicopatologias futuras. Daí nosso interesse em intervir pelo menos até quatro meses após uma catástrofe, com o nosso Programa de Ajuda Humanitária Psicológica, o PAHP. Temos como intento, eliminar ou minimizar respostas e/ou energias de ansiedade, para permitir às pessoas danificadas, que se aproximem de uma recuperação.
Os métodos utilizados no Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP também incluem a busca da resignificação do entorno interno das pessoas afetadas, favorecendo situações onde possam se sentir mais seguras e relaxadas emocionalmente, para enfrentar as decorrências e lembranças dos temores das catástrofes. Tentamos oferecer recursos de aprendizagem de controle da, não manutenção das aprendizagens de reações de estresses, para que as pessoas danificadas por catástrofes, através de dinâmicas sistêmicas interpessoais e intrapsíquicas, possam ser ajudadas, além da superação, para o fortalecimento de suas vinculações para a vida, para a recuperação e o resgate da saúde, da auto-estima e do sentimento de dignidade em ser um ser humano.
Etimologicamente o trauma vem do verbo grego que significa lastimar, exaurir, esgotar e que denota ferida ou injúria. A sintomatologia do trauma tem sido estudada e sistematizada por diversos autores como Kardiner e Spiegel (1947) e Greenac (1952) e Kahn (1957) e destacam a importância da relação de eventos externos com a realidade interna.
Cito aqui novamente, Moty Benyakar (2009) que diz que a noção de trauma é inerente à complexidade da existência humana e que a área da traumatologia estuda as conseqüências psicossociais mediatas e imediatas dos eventos disruptivos, que podem ocorrer, por exemplo, nas catástrofes naturais.
Importantes estudos acerca de traumas têm sido desenvolvidos a partir das duas primeiras guerras mundiais, do holocausto e da guerra do Vietnam, entre outras.
Os primeiros estudos científicos sobre comportamentos em situações de catástrofes, datam de menos de meio século. William James (1910) e outros psiquiatras relataram estudos de vítimas do terremoto de São Francisco em 18 de abril de 1906 e de catástrofes navais nos Estados Unidos. Também os estudos de Cantril sobre a emissão radiofônica de Orson Welles, chamada invasão de Marte, de 30 de outubro de 1938 e Nova Jersy, Estados Unidos.
Há duas grandes categorias de desastres: as provocadas pelo homem de forma intencionada como: agressões, guerras, ataques terroristas, violências sexuais, entre outras.
E as catástrofes provocadas pela natureza, que podem ser divididas em previsíveis e imprevisíveis.
Em áreas onde há furacões, erupções vulcânicas, inundações, a preparação física e mental da população pode ser diferente dos casos onde há de terremotos ou incêndios de grandes proporções do produto global de diferentes áreas geográficas. Embora alguns desastres possam ser evitados, as pessoas nem sempre estão informadas e preparadas para lidar com essas situações, geralmente pelo fato de a maioria destas situações ocorrerem em locais com populações de baixa renda. Há um grande progresso sobre a aptidão da população para lidar com estas situações, mas ainda estamos longe de preparação psicológica adequada.
Uma boa formação, o fato de que cada um saber o que fazer nestas situações, quais são as instituições responsáveis para lidar com esses eventos, lugares aos quais a desenhar, entre outros tem um papel importante de prevenção mencionada. Capacitação nestes casos,onde preparar as pessoas para descobrirem os seus próprios recursos para resolver estas situações.
Neste Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP) ganhamos como parceiros inestimáveis, jornalistas da Associação Brasileira de Jornalistas de Empresas, ABERJE, que, atendendo aos nossos apelos de apoio para essa educação da população afetada por catástrofes, criaram o chamado Comunicadores Sem Fronteiras, cuja meta é, através dos recursos da mídia local, passar informações às pessoas sobre o funcionamento do PAHP no local, bem como sobre os sintomas esperados nessas circunstâncias.
Numa catástrofe natural podemos trabalhar em três momentos especiais: a fase do pré-impacto, quando se pode avisar a população, com alguma antecedência; a do impacto propriamente dito e a do pós-impacto, quando se fazem as avaliações de danos materiais e humanos.
O Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP trabalha nessa terceira fase: a do pós-impacto, com a fase de “lua de mel” de ajudas e solidariedade e quando chegam os auxílios de abrigos, roupas, alimentos e remédios e a “fase da desilusão”, quando há interrupção desses apoios e as pessoas podem ter que enfrentar problemas, que poderão continuar para o resto de suas vidas.
Os efeitos mentais das catástrofes podem acarretar estresses pós-traumáticos e gerar sequelas altamente danosas ao desenvolvimento das futuras gerações. Em contextos sociais pós-catástrofes, são potencializadas as mazelas da pedofilia, do abuso sexual intrafamiliar, das agressões dos mais diversos níveis, do abandono das crianças, do desligamento social dos adultos, do abandono das atividades cotidianas, da desestruturação da família e do desaparecimento das perspectivas de futuro.
A idéia de resiliência significa que de alguma forma, os indivíduos poderiam escapar de um destino inevitável, se eles foram os fatores que aumentaram a sua capacidade de suportar o impacto psicológico normal de um evento. A importância de se estudar a resistência ao impacto é que pode haver algum tipo de característica ou comportamento que protege as pessoas que desenvolvem sintomas no curto ou longo prazo o que pode ser aprendido.
O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) pode-se caracterizar como uma falha na recuperação causada, em parte, por uma falha na extinção do medo depois do trauma. Ao estudar o processo de extinção, podemos informar-nos sobre a etiologia e a persistência do TEPT. Uma de nossas hipóteses fundamentais é que o TEPT trata-se de um transtorno causado, em parte, por uma falha na extinção de reações psicológicas e fisiológicas pós-traumáticas previsíveis.
Um dos cuidados que sugerimos ter em nosso Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP é o de diferenciar o modo como as pessoas serão chamadas: de vítima ou danificadas? Isso para tentar evitar que, em se sentindo vítimas, as pessoas fiquem submetidas apenas ao assistencialismo da sociedade e, passando de serem sujeitos a serem objetos do social, percam motivações para o fortalecimento de suas forças internas. Já com o título de danificadas, as pessoas são vistas e se vêem como afetadas por uma catástrofe com conseqüências de estresses físicos e psicológicos, mas que podem colaborar e lutar por suas recuperações. Vejamos estes tais depoimentos de pessoas com nomes fictícios, que atendemos nos Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP:

“… se Deus quis assim… ele vai resolver… o Governo tem que resolver… a gente aceita o que vier… pode ser que a gente mereça ou não…”
                                                                                                                    Josefa, 40 anos, Maranhão
“… eu quero ser professora e bombeira… como vocês… e ajudar a salvar as pessoas… e a ensinar que a gente acreditando tem mais força…”
                                                                                                                              Iara, 15 anos, Niterói

Sabemos desde os estudos de Bremner (1999) que os estresses causam sérios danos ao cérebro e, hoje, pesquisas de Roozendaal (2002) relatam que há disfuncionalidades do hipocampo e da amígdala.
Planejar um Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP deve conter a preocupação de toda a equipe: de psicólogos a voluntários de outras profissões, para o desconhecido. É necessário que se desenvolva, em um ritmo veloz, equipes com pessoas altamente capacitadas no tema, com grande flexibilidade em sua ação e com potencialidades de inovar e recriar estratégias ante as demandas diversas, desde que não percam sua solidez técnica e teórica.
Temos o cuidado, neste Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP, de sempre ter nas equipes um psicoterapeuta de plantão, que não vai a campo, mas atente os profissionais todas as noites, no retorno dos trabalhos. Isso objetiva evitar e/ou minimizar as chamadas: síndromes da compaixão, com relações altamente transferênciais, de perda de referência de limites e alcances de ajuda entre os integrantes do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP e os danificados. E, ainda, para evitar as chamadas traumatizações secundárias. Vejamos o depoimento de uma psicóloga e de um desses PAHP; de nome fictício Francine em Guaraciaba, em Santa Catarina, em 2010:

“… eu ali estava na frente de um homem congelado, paralisado, com uma chave de fenda na mão… a única coisa que sobrou da sua casa, que o tornado levou… fiquei muda e igualmente paralisada… eu não sabia o que fazer… e pensei que ele ainda tinha uma ferramenta nas mãos… e eu, nenhuma. Eu me sinto frustrada, impotente e incapaz… duvido de minha capacidade de ser psicóloga…”

É fundamental que a equipe do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP, de psicólogos e voluntários, saiba que estamos trabalhando não com enfermos que nos buscaram, mas com pessoas, a princípio sadias que, de forma abrupta enfrentam situações altamente patológicas. E que, além disso, há patologias emergentes, que são silenciosas.
Os Programas de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP sempre são contextualizados às culturas locais.
Ressalto que não apenas as pessoas danificadas diretamente e que perderam seus lares, precisam de um trabalho psicológico, mas, também, seus familiares e todos os envolvidos no evento, como: socorristas, médicos, enfermeiros, bombeiros, militares, policiais e voluntários, entre outros. Além, é claro, da equipe do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP, com atendimentos psicoterapêuticos e de supervisão diários.
Nosso Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP está dirigido ao trabalho psicológico com comportamentos individuais e coletivos. Nos primeiros, trabalhamos com os estados de ansiedade, fóbicos, depressivos e, algumas vezes, psicóticos. Nos segundos, com pânicos coletivos, êxodos, violências, defesa com agressividade, agitações desordenadas ou, até, a possibilidade de suicídios coletivos.
Este programa observa, em sua proposta metodológica de diagnóstico, em quais fases as pessoas, em pós-catástrofe, estão, como: de choque, de reações emocionais impulsivas e violentas, e de resolução, quando o medo se acalma e se recuperam autocríticas e possibilidades de reorganização social. Além disso, pedimos ajuda e apoio locais para efetivar encaminhamentos possíveis às pessoas em risco; as possibilidades do ambiente social e os recursos médicos, psicológicos e ­­­psiquiátricos existentes.
Os métodos utilizados neste Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP são: os Sociodramas Construtivistas de Catástrofe e de Reconstrução (Zampieri, 1996) feitos com grupos e respectivamente no início e no final do Programa local; os atendimentos em Protocolos Grupais Interativos com EMDR (Eye Moviment Desensitization and Resprocessing de Shapiro, (2000); Ignácio Jarero e Lucinda Artigas, (1999) e John Hartung, (1999) com grupos específicos de: crianças, adolescentes, adultos, idosos, casais e famílias; com Debriefing (Mitchel, 1974) também para grupos e com EMDR (Shapiro, 2000) para os atendimentos individuais e mais graves.
O tempo do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP varia de 7 a 10 dias em primeira intervenção e de 2 a 3 dias na fase de seguimento e supervisão. Pode ter de uma a seis etapas, dependendo das necessidades locais.
Um dos trabalhos do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP é a capacitação simultânea dos psicólogos locais para viabilizar os atendimentos a posteriori. Já desenvolvemos o Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP desde 2008 em Santa Catarina, nas cidades de Ilhota, Gaspar, Blumenau e Guaraciaba; em São Paulo, em Santana do Parnaíba; no Maranhão, nas cidades de São Luis, Rosário, Trizidela do Vale e Pedreira; e na cidade de Niterói. Estamos com projeto para Programa de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP em Alagoas e Pernambuco, para ainda, este ano.
Atendemos seis mil pessoas e capacitamos 180 psicólogos junto ao Rotary de Blumenau dos locais das tragédias.
A experiência do Rotary Club São Paulo – Butantã neste trabalho começou em dezembro de 2008, quando organizou a ida de um grupo de 31 psicólogos ao Vale do Itajaí (SC), região devastada pelas enchentes de novembro de 2008. O grupo atendeu 1.200 vítimas da catástrofe e formou 43 profissionais locais.
O mesmo trabalho foi repetido em maio de 2009, no Maranhão, após as enchentes que destruíram pequenos municípios no interior do Estado.
Em cada caso, o projeto do Rotary conta com a ajuda de muitos rotários e de entidades locais – como ocorreu em Santa Catarina e no Maranhão, com o apoio da Federação das Indústrias do Estado (FIESC e FIEMA), do Serviço Social da Indústria (SESI) e de entidades de Ensino Superior (FURB e UNICEUMA), além da Força Aérea Brasileira (FAB).
Estas estratégias grupais em catástrofes para prevenção de estresses pós-traumáticos foram chamadas pela mídia de Blumenau, em 2009: “Abrigos para almas” e inclui o treinamento de 60 horas, para psicólogos, médicos e assistentes sociais da rede pública e do grupo de voluntariado rotariano, para a manutenção dos atendimentos à população.
Nesta V Mostra de Produção Científica da Pós-Graduação Lato Sensu da PUC-GO, que ocorrerá dia 22 de outubro de 2010, queremos colaborar, no intuito de favorecer o crescimento de todos, oferecendo uma capacitação para os psicólogos presentes, que, em forma de um mini curso de 4 horas, possa dar-lhes instrumentação técnica e teórica do Debriefing (Mitchel, 1934), um dos protocolos utilizados nos Programas de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP). Entendemos que esta pode ser mais uma oportunidade de construir, além da conscientização, uma capacitação que favoreça novas prontidões para novas intervenções em catástrofes naturais, o que, infelizmente, está previsto nos estudos sobre previsões, de especialmente inundações, em nosso país.
As parcerias da F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde com o CAEP de Goiânia e a PUC-GO, promovem a socialização e a divulgação desta forma de conhecimento, que, sem dúvida, é pertinente ao tema desta mostra: Ciência para o Desenvolvimento Sustentável. E sem dúvida, não poderíamos desenvolver todo este trabalho sem o apoio do Rotary.
Uma Psicologia para a humanidade é um compromisso de cidadania e de comprometimento da ciência nesta era pós-moderna.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SHAPIRO, F. (1989). Eye Movement Desensitization: A New Treatment for Post-Traumatic Stress Disorder. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 20, 211-217.

Os Traumas Nossos de Cada Dia

co-responsabilidades e desafios!

Ana Maria Fonseca Zampieri, Ph.D.*
Ana Paula Fonseca Zampieri, Psicóloga**
Paulo Zampieri, Dr.***

F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde Ltda
Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO)

RESUMO: Os autores apresentam o conceito de trauma e do Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT (DSM-IV) numa visão sistêmica e suas experiências em tratá-lo com EMDR, inclusive em Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP). Descrevem o que chamam de entornos traumatogênicos dos cotidianos das vidas das famílias.
Palavras-chave: trauma, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP), prevenção.

ABSTRACT: The authors present the concept of trauma and of Post-Traumatic Stress Disorder – PTSD (DSM-IV) in a systemic view and their experiences in healing with EMDR, including Program of Psychological Humanitarian Help (PPHH). They describe what they call surroundings traumatogenic of everyday lives of families and people in general.
Key-words: trauma, Post-Traumatic Stress Disorder, Program of Psychological Humanitarian Help (PPHH), prevention.

Na dimensão da causalidade histórica da ciência, sabemos da importância da relação dialética de mútua influência entre a história, os fatores sociais, políticos, econômicos e ideológicos na clínica psicológica e psiquiátrica.
Da raiz indoeuropéia ter (usar quebrando) e do grego titroskein (ferir, deteriorar) e troma (ferida, dano, desastre) a palavra traumatikos, depois traumaticus nos oferece o atual termo: traumático. O trauma é uma resposta do sistema nervoso e não tem origem no evento, fala-nos Peter Levine (2010). Sintomas semelhantes podem se desenvolver a partir de uma ampla variedade de acontecimentos. Freud (1895) já nos dizia que o trauma é uma barreira protetora contra a superestimulação, acarretando sentimentos avassaladores de impotência.

*Pós Doutora. Doutora. Mestre em Psicologia Clínica. Especialista em EMDR.
**Especialista em EMDR infantil, Terapeuta Familiar.
***Médico psiquiatra. Especialista em EMDR e Terapeuta Familiar.

Podemos dizer que o trauma psicológico é um estado severo de medo, que vivenciamos quando somos confrontados com um evento repentino e inesperado, potencialmente ameaçador à vida, sobre o qual não temos nenhum controle (Flannery, 1994).
Como um acontecimento se transforma em trauma? Apesar de a ansiedade estar presente em todos os seres humanos, alguns indivíduos a manifestam com intensidade e duração exacerbadas, impedindo a continuidade equilibrada da vida. É o caso de boa parte das pessoas que sofreram traumas: um acontecimento se transforma em trauma quando o seu sistema é sobrecarregado cronicamente.
Nos Estados Unidos, a experiência da guerra do Vietnã levou os autores do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM – IV, 1994) ao termo Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT). Em 1994, a Associação Psiquiátrica Americana apresenta o DSM-IV que descreve que no trauma a pessoa foi exposta a um evento traumático no qual se observavam duas características: vivenciou, testemunhou ou foi confrontada por um evento ou eventos que envolviam morte ou ameaça de morte ou de lesões graves, ou ameaça à integridade física própria ou de outros; e, ainda, uma resposta que acarretou medo interno, impotência ou horror.
A probabilidade de o Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) ser desenvolvido está diretamente relacionada a uma série de fatores, entre eles: características específicas do acontecimento, grau de exposição: tempo ou vezes em que a situação ocorreu; fatores socioeconômicos, qualidade do apoio social recebido, fatores biológicos como a diminuição do volume hipocampal; traços de personalidade e percepção do indivíduo perante o evento. Enfatizamos que a maneira como as pessoas processam a situação estressora, após sua ocorrência, é determinante para que o trauma seja configurado ou não.
O trauma psicológico pode ser especialmente grave ou duradouro quando o agente causador é humano: ataque social ou físico; assalto a mão armada; roubo; seqüestro; violência moral, psicológica, física ou sexual; atentado terrorista, confinamentos como prisioneiro de guerra ou em campo de concentração; desastres provocados pelo homem, acidentes automobilísticos graves; tortura política, entre outros.
Como o trauma se apresenta? As lembranças do trauma geralmente estão fragmentadas em imagens, sons, odores, sensações físicas (náuseas, tonturas e outras) ou emoções (aversão, nojo, medo, pavor, raiva, tristeza) não integradas a outras memórias autobiográficas. Estímulos relacionados ao evento traumático, específicos e/ou genéricos, podem reativar as memórias que retornam muito mais fortes que uma simples recordação, com nitidez visual e forte expressão emocional, provocando a revivência do evento que foi traumagênico.
Traumas podem afetar o funcionamento cognitivo, a saúde física e as relações interpessoais. Em termos biológicos, Peter Levine (2010) diz que o trauma se organiza em torno da resposta de imobilidade tônica, potencializada pelo medo, presente no animais, dos insetos aos humanos. A chave para a resolução do trauma está no desacoplamento do medo da imobilidade paralisante, permitindo que energias intensas ligadas ao estado de imobilidade possam ser acessadas, liberadas e transformadas.
Desta forma, podemos entender que o trauma acontece quando o organismo é forçado além de sua capacidade adaptativa para regular os estados de ativação de luta ou fuga. O sistema nervoso traumatizado se desorganiza, falha e não consegue se recompor, imobilizado pela impossibilidade de resposta. Isto se manifesta em uma fixação global, em uma perda importante na capacidade rítmica de auto-regulação, que oriente e permita o estar no presente e fluir da vida.
Quais são os mecanismos fisiológicos e psicológicos usados para detectar, responder e recuperar eventos altamente estressantes? A psicotraumatologia surgiu de um ramo da medicina: a cirurgia do trauma, com Donovan em 1991. Atualmente, integra estudos do estresse traumático, a vitimologia, os estudos dos traumas por violações e agressões sexuais e os estudos dos sobreviventes do holocausto, entre outros. Os primórdios deste campo são encontrados desde 1965, quando médicos como Veith (1965) iniciaram suas publicações sobre a histeria. A partir de Ellenberger, em 1970, publicaram-se os principais sintomas como: flashbacks, dissociações e sobressaltos, antes considerados obras dos deuses, do demônio e dos espíritos, nessa ocasião, vistos, sinais de histeria.
No Hospital La Salpetrière, de Paris, famoso estudioso, Jean-Martin Charcot (1862), foi o primeiro a retirar da doença psicológica e mental as explicações divinas e espirituais.
Nos Programas de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP – que fazemos desde 2008, com vítimas de catástrofes naturais, ainda encontramos pessoas que explicam o sintoma, pós-tragédias, especialmente as dissociações, como coisa do demônio ou espirituais. Como exemplo temos a narrativa de Lúcia, nome fictício de uma desabrigada de Rosário, no Maranhão, com 62 anos, que disse:

“… foi tão braba a enchente que os espíritos saíram da terra… os maus ficam lá no fundo… na lama tudo ficou misturado… bicho, gente, espíritos… e essa daí… a vizinha biruta… os demônios ficaram no corpo dela… porque ela quase se afogou… bebeu água de espírito mau… por isso ela falou que não sabe onde está… neste abrigo a cabeça dela tá que é só espírito ruim fazendo confusão… eles fazem ela gritar de noite, e fica assustada… coitada! …”

Importante estudioso de traumas, o psiquiatra argentino Dr. Moty Benyakar (2005) cita Figley, que em 2001 publicou Origins of Traumatology and Prospects for the Future, que oferece estratégias para ajudar as pessoas traumatizadas a mudarem e se libertarem de seus sintomas, na busca de soluções resilientes.
Queremos aqui refletir sobre o cuidado que nós, os profissionais de saúde mental, devemos ter em não nos limitarmos apenas aos aspectos observáveis dos eventos catastróficos ou traumatogênicos, bem como aos sintomas, especialmente do chamado Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, DSM – IV), mas também às forças e ao crescimento de pessoas que vivem situações potencialmente traumáticas. Precisamos observar como circunstâncias internas e externas das pessoas e de suas redes sociais, podem constituir as forças que chamamos de resiliência, pois, após a superação trazem “empoderamento” às vítimas de catástrofes, por exemplo.
Vejamos esta narrativa de Suely, com 39 anos, nome fictício de uma dos desabrigados, em 2008, em Blumenau, Santa Catarina:

“… hoje a idéia de voltar a ter uma casa nossa, onde a gente possa ter nosso jeito de viver, de ter as nossas idéias de criar filhos, de ter Deus no coração… eu valorizo tudo de outras formas, entende? … eu era muito crítica, preguiçosa e não sabia dar valor ao que tinha… meus filhos, os três que tenho… perdi um… a água levou… ele vai me dar forças para luta por nossa família.”

Citamos o psiquiatra argentino, Moty Benyakar (2006) que diz que a noção de trauma é inerente à complexidade da existência humana e que a área da traumatologia estuda as conseqüências psicossociais mediatas e imediatas dos eventos disruptivos, que podem ocorrer.
Todos nós, seres humanos e animais em geral, temos uma fisiologia de resposta ao perigo. O nosso sistema nervoso autônomo regula funções básicas do corpo, incluindo o sistema visceral, ou nossos órgãos internos e tem duas ramificações: o Sistema Nervoso Simpático e o Sistema Nervoso Parassimpático.
O Sistema Nervoso Simpático (SNS) prepara o corpo para a ação, regula a ativação, aumenta a atividade nos momentos de estresse, tanto negativos quanto positivos. Ele é ativado quando estamos alertas, excitados ou envolvidos em atividades físicas; e nos prepara para enfrentar emergências e ameaças através de aumento dos batimentos cardíacos, da respiração e da pressão sanguínea; desvia o sangue do sistema digestivo para os músculos, o que permite uma movimentação mais rápida; a contração dos vasos sanguíneos, drenando o sangue da superfície da pele que fica pálida e fria, preparando-a para uma lesão potencial; a dilatação das pupilas, a retração das pálpebras e focalização dos olhos. Em síntese, o Sistema Nervoso Simpático (SNS) prepara para o perigo, luta ou fuga. Já o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) é o que ajuda a relaxar, reorganizar e regenerar, após a ameaça ou perigo; através de soltura da tensão muscular, diminuição dos batimentos cardíacos e da pressão sanguínea; aquece a pele e devolve-lhe a cor, auxilia na digestão; promove o retorno do sangue para os vasos periféricos; permite que o sistema imunológico funcione novamente e promove a secreção de fluidos corporais.
Quando acontece a ativação extrema do Sistema Nervoso Simpático (SNS), o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) também atua como um mecanismo de freio emergencial, desacelerando todos os processos corporais, o que pode resultar em uma resposta do congelamento. Desta forma, o trauma pode acontecer quando o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) fica parado, fixado nessa resposta de congelamento, que, assim, se sobrepõe à hiperativação do Sistema Nervoso Simpático (SNS), ao invés de descarregar sua energia; o que nos ajudaria a relaxar, descontrair e assim, descarregar a ativação do Sistema Nervoso Simpático (SNS).
De forma bem simplificada, podemos dizer que o Sistema Nervoso Simpático (SNS) e o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) têm funções que se inter-relacionam. Enquanto o SNS dilata a pupila, inibe o fluxo da saliva, acelera o batimento cardíaco, dilata os brônquios, inibe os movimentos peristálticos e a secreção; converge o glicogênio em glicose; secreta adrenalina e noradrenalina e inibe a contração da bexiga; o SNP estimula o fluxo da saliva, diminui o batimento cardíaco, contrai os brônquios estimula os movimentos peristálticos e a secreção, estimula a eliminação da bílis e contrai a bexiga.
Quando existem perigos e ameaças, o sistema nervoso saudável recupera contínuos ciclos de carga/descarga, dentro de limites aceitáveis.
Os sintomas do estresse traumático são uma forma, não saudável, de segurar altos níveis de ativação ou de excitação em um Sistema Nervoso hiperativado. Eles podem incluir: hiperativação do SNS, hiper-excitação e constrição, com sintomas físicos de aumento dos batimentos cardíacos, dificuldade de respiração, que pode ser rápida, superficial e ofegante; suores frios, arrepios, tensão muscular e resposta de sobressalto. Ainda, com sintomas emocionais de ataques de ansiedade e pânico, mania, ataques de raiva, hipervigilância, turbilhão de pensamentos e preocupações excessivas. Podem incluir, ainda, hiperativação do SNP, com desconexão e dissociação, apresentando sintomas físicos de baixa de energia, exaustão, entorpecimento, tônus muscular baixo, má digestão, índices baixos de batimentos cardíacos e/ou de pressão sanguínea e funcionamento inadequado do sistema imunológico. Há sintomas emocionais de: depressão, dissociação, apatia, desconexão nos relacionamentos e reação débil aos estímulos.
Quando há hiperativação simultânea dos dois ramos do sistema nervoso autônomo, ou seja, do SNP e do SNS, há sintomas de ansiedade com depressão, rigidez muscular em uma parte do corpo acompanhado de hipotonia em outra parte e diarréia alternada com constipação.
Peter Levine (2010), a esse respeito, diz que a estrutura do trauma, incluindo a hiperativação, a dissociação e o congelamento, baseia-se na evolução dos comportamentos de sobrevivência do predador/presa; e que os sintomas do trauma são o resultado de uma resposta biológica incompleta à ameaça, que fica congelada no tempo. O trauma, segundo o autor, pode ser renegociado, quando a resposta de congelamento recebe apoio; podendo “degelar” e finalizar o ato interrompido.
Os traumas podem ser grandes, únicos, pequenos, repetitivos, discretos e sutis.
As famílias são o cenário de eventos traumáticos repetitivos, tais como golpes físicos, abusos emocionais, sexuais ou incestos. A violência muda as relações familiares, torna as relações distorcidas e as transforma em relações perturbadas. Podem se distanciar uns dos outros; uma das pessoas pode acomodar sua própria forma de funcionamento para preservar a harmonia do relacionamento; podem se envolver em um conflito; e o casal pode triangular entre outros. A família é fundamental para questões como: vulnerabilidade, recuperação e resistência aos eventos traumáticos e suas conseqüências. Devemos manter em mente que a família é parte de um todo que sofre o trauma quando um ou mais dos seus membros é oprimido por acontecimentos externos.
Bowlby (1990) fala de experiência de vinculação, através da qual o ser humano faz conexão e diferenciação com os outros e com o mundo. E, ainda, que essa experiência de vinculação é a grande reguladora das emoções. Esse chamado sistema de apego é um fator chave para a construção da identidade e se ativa sob condições estressantes, para reduzir o estado de alerta e reinstaurar o sentimento de segurança. Podemos dizer, então, que o trauma na vida infantil ou adulta é um conjunto de experiências que atentam diretamente contra a construção do si mesmo em relação. Pacientes traumatizados falam com freqüência de experiências como que isoladas e fragmentadas, como, por exemplo, diferentes percepções sensoriais que reaparecem com sensação de imediatez sem fluir no tempo, como os flashbacks e as revivências.
E o que dizermos a respeito dos traumas de nossas crianças? Nos primeiros anos da infância, sabemos que o cérebro está em processo de crescimento e a negligência, o maltrato físico e emocional e o abuso sexual, entre outros, afeta o desenvolvimento normal cerebral.
O estresse pós-traumático pode interferir no desenvolvimento da maturidade emocional dessas crianças, trazendo-lhes diversos problemas com relação à: aprendizagem, culpabilidade, vergonha, inibição e agressividade, entre outros. Se as crianças aprendem, a partir de suas experiências, como é o mundo, o que aprendem de suas experiências traumatizantes?
Trabalhamos com crianças, adolescentes e adultos, com histórias de traumas, com terapia de EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) ou Movimento Ocular, Dessensibilização e Reprocessamento. Esta abordagem terapêutica busca a integração emocional e cognitiva da experiência que resultou em trauma.
Shapiro (2002), criadora do EMDR, diz que a busca do processo de informação adaptativa facilita ao terapeuta um procedimento para identificar os acontecimentos passados que contribuem ao problema, os acontecimentos atuais que o desencadeiam e as habilidades e recursos internos que necessitam ser incorporados para uma vida plena e saudável.
Pesquisas em mais de 70 países mostram como o EMDR traz bons resultados com pessoas vítimas de um único acontecimento traumático (Rubin, 2003), com cerca de algumas sessões (3 a 8) de 90 minutos. Com situações de trauma repetidos, como abusos sexuais, físicos e psicológicos ao longo da infância, o tratamento exige um tempo bem mais longo, dependendo do caso.
De forma simples, podemos dizer que o EMDR considera que o acontecimento etiológico é codificado de modo disfuncional no sistema de memória da pessoa e que através de um foco eleito como o representante do trauma, aliado a uma cognição negativa, junto às emoções que acompanham esse trauma; aliados a uma cognição positiva onde terapeuta e paciente possam trabalhar, com diferentes modalidades de estímulos bilaterais (oculares, auditivos ou táteis); enquanto o paciente se fixa no foco pré-determinado por ele, começam a emergir emoções, imagens, pensamentos e sensações que vão se associando livremente. Durante esse processo, o paciente, com a facilitação do terapeuta, realiza conexões e associações que têm como conseqüência a mudança das percepções disfuncionais para outras mais adaptativas e saudáveis (Van Der Kolk et al., 1996). As novas aprendizagens requerem que se façam conexões entre as experiências de memória associativa, entre as experiências do presente e do passado. O núcleo do trabalho de EMDR consiste em potencializar as conexões através desses canais associativos da memória. O EMDR, centraliza-se na experiência corporal do afeto, já que considera que a expressão verbal do mesmo está limitada pela própria linguagem. Isto, junto com a integração progressiva do emocional dentro da nova experiência, que vai surgindo durante a terapia e a construção das narrativas emergentes.
Trabalhamos, em nossa prática clínica, com: medo de dormir e de ficar sozinho, nas crianças; pânico em elevadores e lugares fechados; medo de viajar de avião; ansiedade ligada a situações de performance sexual; inibições profissionais; quadros de violência nas relações conjugais e familiares, entre outros. Como exemplo, podemos citar uma narrativa de Joaquim, nome fictício de um executivo de 43 anos:

“… como eu poderia imaginar que meu medo e desespero e “brancos” ao falar em público tinham relação com a humilhação que sofri aos 7 anos, na sala de aula de leitura ?”

Tantos outros traumas de nossos cotidianos podem existir ligados a: relações de violência banalizadas em nossa sociedade como: humilhações por educadores e chefes; filmes de terror assistidos por crianças; relações sexuais forçadas; notícias e manchetes sensacionalistas, entre outras. Há, ainda, traumas negados pelo preconceito social, como: o racial, os que podem ser oriundos de abortos provocados e de violência sexual de homens contra meninos. Uma sociedade culturalmente sexista, homofóbica e bifóbica, dificulta a revelação dessas experiências, mesmo na esperada segurança ética e sigilosa do setting do psiquiatra e do psicólogo.
Como nenhum homem é uma ilha e vive isolado, é importante focalizar a dimensão psicossocial do trauma na saúde mental das pessoas. Este deve estar situado em coordenadas sócio-históricas bem como seus diversos entornos. Historizar a dor de onde vem, que razões ela possui e quais personagens e protagonistas estão presentes, é fundamental.
Pensemos nos aspectos da criação, manejo e transmissão de símbolos, sua sociabilidade e sua atividade nos sujeitos enclausurados pelo Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), por exemplo. Estes são sujeitos sócio-históricos, não nos esqueçamos. Pensemos em crianças traumatizadas por uma cultura que confunde diferenças com desigualdades; com violências terroristas e de guerras; as humilhações por diferenças de raça e religiões; as violências de gênero e as domésticas; só para citar algumas. Martin-Baró (2009) disse que o trauma, além de causar danos ao sujeito, afeta e é produzido pela sociedade.
Precisamos refletir como pais, educadores, profissionais da saúde, políticos, governantes e gestores, em geral, sobre nossas atitudes que alimentam, dão cobertura, negam ou institucionalizam as dores de pessoas traumatizadas, ou seja, cada um de nós, em maiores ou menores graus.
Se perdermos as nossas sensibilidades aos sofrimentos dos quais somos autores, co-autores e vítimas, estaremos contribuindo para uma cristalização concreta nos indivíduos que estão em relações sociais desumanizadoras. Olhemos a nosso redor! Quantos grandes e pequenos traumas, mas todos potencializadores de sofrimentos, podem trazer as autoridades de empresas com os assédios morais; os educadores, com a humilhação e a massificação na aprendizagem; os abusadores do poder, que manipulam sistemas de crenças e valores que dificultam nos relacionarmos como nossos entornos, com confiança e reconhecimento do próprio valor?
Como não nos traumatizaremos numa sociedade em que o medo está se convertendo em padrão fundamental da vida social? O medo é gerado na subjetividade de pessoas concretas e, como tal, é uma experiência privada e socialmente invisível. Todavia, quando milhões de pessoas, como nós desta São Paulo, por exemplo, estamos ameaçadas por seqüestros, roubos, balas perdidas, que matam indiscriminadamente; crianças que atiram em crianças dentro de salas de aulas; aviões que caem em tetos de lares; enchentes que misturam, na lama, fotografias de histórias de vidas com animais; crianças e idosos; além dos suicídios de jovens desesperançados; como não observar esses entornos que provocam e nos retraumatizam?
A vida cotidiana, nos traumas nossos de cada dia! Como falar de saúde mental de um povo com dificuldades de defender sua família do cotidiano social? Como co-construir liberdade para o bem estar? Como impedir que traumas destruam a crença solidamente compartilhada de que podemos ser, como humanos, bons, honestos, confiáveis, amáveis e sensíveis? Se ficarmos radicalmente desconfiados das relações interpessoais, como produtos dos traumas nossos de cada dia, como convivermos com a dramática consciência da vulnerabilidade; da perda da sensação de nossa importância na nossa sociedade e nosso bem estar comum?
Para a construção de uma cultura da paz, a idéia de resiliência significa que, de alguma forma, os indivíduos podem escapar de um destino inevitável, se aumentarem sua capacidade de suportar o impacto psicológico de um evento potencialmente disruptivo, como os citados aqui.
Esperemos que estas reflexões nos impeçam de não nos desanimarmos frente ao espanto, ao sadismo, à impunidade e à silenciosa banalidade do que pode nos tornar traumatizados a cada dia, na consciência do nosso viver, a cada momento, como protagonistas, autores e diretores de nossas vidas em comum.
Que a saúde mental, em seus vários segmentos possa ser cada vez mais preventiva para evitar que pessoas moral e eticamente justas, participem de ações destruidoras de nosso bem estar comum! Uma educação para a consciência e a resiliência é um dos maiores desafios de nossa saúde mental!
Os traumas nossos de cada dia: nossos desafios e responsabilidades!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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MARTIN-BARÓ, I. Accion e Ideologia. Psicologia Social desde Centroamérica. San Salvador: UCA, 2005.

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VEITH, I. (1965). Hysteria: the history of a disease. Chicago & London: University of

La Mujer, su silencio y el Sida (Español)

Casal2Muchas mujeres latinas guardan silencio sobre sus vidas matrimoniales, sin saber que tienen derecho a hablar. En ocasiones no saben a quién hablarle, ni cuando, ni como. Amordazadas por tantos años de silencio, la opresión se adueñó de sus labios y sus almas. Aún así, insensibles a sus heridas emocionales, siguen luchando por sus familias sin cuestionar que tipo de hombres y mujeres están ayudando a crear. 

En los últimos veinte años, he investigado la vida sexual de muchas parejas y he percibido que el matrimonio latino, y específicamente el brasileño, aún esta fundado sobre mitos, valores, tabúes y creencias relativas a su ciclo de vida, a sus crisis previsibles y a la necesidad de esfuerzo para asegurar su supervivencia o vida saludable.

Hay un hallazgo asombroso en estas investigaciones. Es el hecho que las prostitutas bien informadas tiene menos riesgo de contraer HIV y SIDA que una madre de familia. Condicionamientos sociales y psicológicos les dictan a las madres de familia como actuar en tanto esposas, haciéndolas más vulnerables a esta enfermedad.

Por un lado, sus maridos tienen a mantener relaciones sexuales extra-coyungales sin preservativos ni cuidados básicos. Por el otro, estas mujeres desarrollan su papel de esposas fieles y sumisas manteniendo con sus maridos un comportamiento sexual sin cuidados para evitar la transmisión de enfermedades sexuales.

¿Por qué una mujer educada en el amor romántico, que espera de su marido al proveedor afectivo, sexual y económico, así como su compañero en la construcción de una familia, se torna vulnerable ante el HIV o SIDA?

Las mujeres latinas aún están condicionadas culturalmente para mantener sus matrimonios al costo que sea necesario. Muchas veces, para evitar las experiencias negativas que vivieran sus madres o abuelas, no se comunican abierta y eficazmente con sus esposos y viven en su matrimonio infelices, solitarias y desconocidas por sus hombres en sus intimidades, frustraciones y sueños de esposas-amantes.

Aprenden a fingir el orgasmo esperando que con ello, sus maridos se sientan sexualmente capaces y viriles, para evitar que las traicionen, o porque no les gusta más un sexo que se tornó obligatorio y rutinario, o simplemente porque desean que sus maridos terminen rápidamente una relación sin placer para ellas.

¿Las mujeres latinas no llegarán a aprender que es el sexo erótico: el sexo que diferencia a los humanos de otros animales sexuados?

¿Sabrán ellas que el amor sexual erótico necesita, a diferencia del sexo reproductivo, de aprendizaje, de cambios a lo largo del tiempo acordes con los cambios físicos, existenciales y hormonales?

¿Conocerán que este amor sexual erótico tiene que ser compartido con sus maridos? Y para cuál finalidad de salud en sus vidas personales y conyugales?

Hay innumerables mujeres latinas, según nos muestran nuestras investigaciones, que creen ser sexualmente frías o que no tienen capacidad de tener orgasmo y placer sexual con sus maridos. Y, sin embargo, no hablan de ello. Permanecen calladas, con mordazas culturales que las terminan enfermando. No saben que este silencio esta condicionado por una cultura ancestral. Que estos condicionamientos las mantiene sumisas, reprimidas y con su auto-estima rebajada en la búsqueda de su placer sexual proactivo, saludable y responsable. Deeste modo, las mujeres se vuelven poco intimas con aquellos hombres con quienes duermen todas las noches de sus vidas de casada.

La ignorancia acerca de sus cuerpos, de sus deseos, de sus temores y de sus maridos es la patología que convierte mujeres casadas de Brasil y de Latinoamérica en protagonistas más vulnerables para contraer HIV y SIDA.

La infidelidad sexual de los maridos está implícita y culturalmente incitada desde la infancia. Como en un acuerdo no hablado, la cultura conyugal latinoaméricana asume que los hombres casados tienen más necesidades sexuales que sus mujeres, que son naturalmente infieles sexualmente y que saben como hacer distinciones entre el amor sexual y el sexo casual.

Un poeta brasileño llamado Vinicius de Moraes dijo que: “el amor es infinito mientras que dure”. Lamentablemente, no nos indicó como hacer para que el amor sea durable para alcanzar el infinito.

Nosotras, las mujeres latinas necesitamos quebrar el silencio de nuestros dolores, de nuestros deseos, de nuestros temores y de nuestros sueños en el amor conyugal para que con nuestros hombres (maridos e hijos) y con nuestras mujeres (madres e hijas) podamos revisar nuestros valores, y para que a partir de su cuestionamiento podamos construir una nueva historia para mujeres esposas, amantes, madres y hijas.

El avance de esta enfermedad que tiene en español un nombre que suena femenino: SIDA, impone que las mujeres casadas seamos menos vulnerables a infectarnos con enfermedades sexualmente transmisibles. Ello será posible, a partir de un proceso de aprendizaje en el amor a nosotras mismas, para nos provea respeto y salud. Esto no será en la confrontación con nuestros hombres, sino en la lucha contra una cultura que nos inmobiliza, nos torna pasivas, insatisfechas y víctimas del amor.

Es necesario soñar un sueño para que sea posible concretar. Nosotras, mujeres latinas, deseamos tener el sueño de liberarnos del silencio en nuestras vidas, en donde el SIDA es simplemente una agresión más.

Foto1Ana Maria Fonseca Zampieri 
 anamfzampieri@uol.com.br
 São Paulo – São Paulo – Brasil
 Doctora y maestra en Psicologia Clinica; Sexóloga;
 Psicoterapeuta de parejas y familias; Psicodramatista.
O Sucesso do Executivo

Qual sucesso?

Publicado no Jornal do Brascan Century Plaza
Prof. Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri
Sexóloga e terapeuta de casais e famílias.
Mestre e doutora em Psicologia Clinica.
C j 2108 da BCP

Há na nossa sociedade atual, crenças de que o homem executivo ou a mulher executiva terão necessariamente, como conseqüências de suas carreiras brilhantes, o estresse, o afastamento do cônjuge e dos filhos, perdas afetivas de amigos de antes de seu sucesso profissional, cobranças de irmãos e pais menos bem sucedidos, crises de infidelidades sexuais pela onipotência gerada pelo poder e a dificuldade em lidar com ele sem “se perder”, egocentrismo e prepotência, entre outros.

O perigo da generalização existe indubitavelmente. Sejamos cautelosos e lembremo–nos de que cada pessoas é única e não cabe em nenhum diagnóstico pré-estabelecido.

Todavia, na prática clínica, há recorrentes queixas de familiares desses profissionais  e às vezes dos próprios, que estão bem perto das descritas acima.

Os profissionais muitas vezes, excessivamente auto e hetero exigidos por um mundo tão competitivo, podem ter na solidão “no meio da multidão” um dissabor existencial inesperado. Podem ter tanta exigência externa que seus “auto diálogos” se esvaem e muitos não sabem ficar sem trabalhar. As queixas de aumento de ingestão de bebidas alcoólicas nos fins de semana especialmente, das dificuldades no ócio, das síndromes de angústias de “domingo” e das férias e feriados, são freqüentes. Há queixas de verdadeiros sintomas de abstinência se ficam sem celulares ou note books ou algo que os mantenha “permanentemente conectados”.

Alguns jovens executivos, com queixas sexuais, demoram a entender que o estresse diário afeta seu desejo e performance e tentam buscar em parcerias novas e excitantes, resoluções para o tédio de ter cônjuges eternamente cobradores e carentes deles. Muitas vezes a busca maior não é a sexual, mas uma parceria mais intima e relaxante.

Há um erro em considerar que o melhor profissional é o que não pode ter vida livre para cuidar-se, fazer atividades físicas e de lazer, ter espaço para refletir sobre o sentido mais amplo de sua existência, ter a cada dia uma possibilidade de desfrutar o privilégio de viver em harmonia consigo próprio e no bem estar comum.

O sucesso deverá estar em pelo menos quatro níveis: psicológico/emocional/sexual, físico/clínico, sócio/familiar, profissional e espiritual (como ser humano, não necessariamente religioso).

Claro que estes âmbitos são dinâmicos. Mas precisamos de uma dança harmoniosa entre eles, para fazer sentido o sucesso do trabalho.

Caso contrário, estaremos submetidos a uma escravidão sutil onde não estão claros os dominadores e os escravizados.

Quando saio à noite do BCP, tenho o hábito de olhar as luzes acessas daqui. São a maioria. Penso em minha família que me espera em casa, na minha vida como um todo e nas pessoas admiráveis que são meus vizinhos aqui. E torço para que se cuidem.  Para que nos cuidemos.

Divórcio e Ecos Familiares

AFETO, DINHEIRO E LUTOS

Ana Maria Fonseca Zampieri, Ph. D.

A família é um sistema aberto e tem vida própria: nasce, cresce, amadurece e morre. Seus subsistemas básicos são: o conjugal, com os papéis e funções de marido e esposa; o parental, com os de pais e filhos e o fraterno, com espaço para irmãos que aprendem a colaboração e a disputa.

Um dos maiores dilemas do ser humano é adequar as demandas existenciais de ter sua própria individualidade ao mesmo tempo em mantém o pertencimento familiar. Nem sempre é uma dinâmica simples e, dentre as crises de um casamento, o divórcio pode ser um resultado.

O casamento e a família inter-relacionados possuem crises previsíveis como: o nascimento dos filhos, sua adolescência, a fase do ninho vazio, a maturidade, a menopausa, a andropausa, frustrações emocionais e financeiras, entre outros. O divórcio ainda é vivido como uma crise imprevisível, como a morte, a falência, doenças e deficiências graves. Apesar de questionarmos o ritual do: “casados até que a morte os separe”, numa era em que a longevidade do ser humano pode ser muito “longa” para um único casamento; e já falarmos em: “até que a vida os separe”, o divórcio ainda constitui uma das maiores dores nas relações humanas nas famílias.

Os filhos são privilegiados quando os pais se respeitam e vivem em harmonia, independentemente se estão casados ou divorciados.

Sabemos que muitas vezes o divórcio pode ser a resposta de saúde para a esperança de renovações de vidas ruins. Todavia, neste artigo, falarei restritamente dos divórcios que têm complicações familiares.

Um dos maiores problemas desses divórcios é exatamente o emaranhamento que as pessoas vivem entre os subsistemas conjugal e parental; apresentando dificuldades em diferenciar os papéis de marido/pai e de esposa/mãe.

Dizem os poetas que o ódio é diretamente proporcional ao amor, no lado do avesso.Observo que a confiança pode ter mais diretamente essa relação. Em divórcios onde o amor não foi sustentado e sobrevivido, há mágoas e ressentimentos; mas, no divórcio onde as confianças foram traídas, o ódio tem um solo mais fértil para se instalar.

Há ecos e ressonâncias em vários âmbitos das relações familiares, em que o divórcio está associado à quebra da ética e da confiança. Como exemplo, ex-cônjuges podem se tornar pais agressivos e ameaçadores à saúde psíquica e emocional de seus filhos, especialmente se são crianças ou adolescentes.

Vejamos o depoimento de uma criança, com o nome fictício de Pedro, com 10 anos de idade, em família pós-divorciada:

“…eles se odeiam tanto que tenho medo…sabe, um dia eles falaram para mim que se adoravam…então agora eles quase se matam…daí…que um dia meus pais podem me odiar também desse jeito, né?…” (2006)

Ou este outro depoimento de uma adolescente de 16 anos, na mesma situação familiar:

“…meu pai disse que não admite que minha mãe tenha a mesma casa e conforto e que coma da mesma comida que nós, os filhos…então ele fará tudo que puder para destruir minha mãe…ficamos filhos de pai rico e de mãe pobre…e ele diz que quem quiser vida melhor que vá morar com ele…ele fala que minha mãe tem que se virar…mas ela ficou 20 anos sendo dona de casa…como ela vai se virar de repente na vida profissional?…ela não sabe nada da nossa empresa familiar…” (2007)

 

Sabemos que o casamento pode ser o palco onde os conflitos de nossas famílias de origem poderão ser re-encenados e resignificados.Quando isso não é possível, as raivas, vinganças e frustrações são maximizadas pelo sentimento de fracasso que o divórcio costuma promover, mesmo que temporariamente. Se isto não foi adequadamente entendido, poderemos ter um divórcio patológico, com ecos e ressonâncias nos afetos, nas finanças e nos espaços para as lutas das diversas perdas de seus membros.

Se isto coincidir, ainda, com relações empresariais, pode haver uma luta pelo poder que fere e magoa mais, fruto de feridas narcísicas dominadoras, onde fazer o outro sentir-se humilhado e fraco, pode provocar traumas severos nas psiques de seus membros envolvidos.

Procuro orientar que, nesses casos, as partes da luta busquem mediações profissionais, seja para evitar problemas financeiros, empresariais, emocionais, sociais e de ética humana; seja para prevenir somatizações, estresses pós-traumáticos, depressões e as chamadas “dores da alma”, que não têm hematomas nem indícios aparentes, mas que podem comprometer a confiança nas relações de amor e de dignidade humanos.

O sofrimento pode fazer sentido quando ele é resignificado e transmutado em alavanca para o crescimento. No entanto, o sofrimento que aduba o rancor e a raiva contra seus próprios familiares, como é o caso da difamação e destruição do pai ou da mãe de seus próprios filhos; provoca perda da capacidade inteligente do ser humano em ser resiliente, aquele que evolui com a dor sem perder sua dignidade, ética e responsabilidade pelo próximo, podendo apenas ser mais um sobrevivente.

Divórcios mal resolvidos têm ecos negativos na afetividade, nas finanças e na capacidade de cicatrização e elaboração de feridas e dores nas relações familiares.

O enfrentamento da realidade do divórcio emocional, com adequadas diferenciações dos subsistemas conjugal e parental, promove saúde e força emocional para o desenvolvimento de todos os seus membros no presente e no modelo que capacita futuras gerações, aos conflitos inerentes da vida.

 

*Doutora e mestre em Psicologia Clínica.
Pós graduada em terapia de casais e famílias.
Terapeuta sexual.
Terapeuta de EMDR.
Psicóloga pela USP.

Educação Familiar

luta contra Gravidez Precoce e HIV/Aids nos jovens adolescentes
Profª Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri*

Quais de nós teve educação sexual nas famílias de origem?
O que aprendemos sobre virgindade, erotismo, sexualidade, prazer, orgasmos, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e Aids? Onde aprendemos? Como aprendemos?

A educação é um processo contínuo e eterno, que tem bases de solidez, confiabilidade e “empoderamento” para as questões da vida, dentro do sistema familiar, especialmente na infância e na adolescência.

Como estão preparadas as famílias atuais, com filhos adolescentes, para lidar com a pandemia da Aids, os perigos do HPV e o problema da gravidez precoce? Tudo isto inserido num contexto social permeado de violências afetivas, sexuais, psicológicas e sociais; a destruição que as drogas podem provocar e tantas novas possibilidades e modalidades de formação de famílias? Hoje temos famílias de pais homossexuais, famílias recasadas, famílias adotivas e monoparentais, entre outras.

Tantos são os desafios e tantas as oportunidades de crescermos como educadores, pais e filhos. Quanto mais nos unirmos, lutando contra a tentação de certezas, para buscar o compartilhar dos conhecimentos que respeitem as diferenças, tanto menos problemas teremos, tanto menos impotentes nos sentiremos frente a estas questões: gravidez precoce e Aids.

Os índices de gravidez, natalidade e aborto entre adolescentes no Brasil, preocupam profissionais das áreas de saúde e ciências sociais e são vistos como expressão de várias transformações sociais, como a liberalização dos costumes sexuais e o baixo uso de contracepção por adolescentes.

Além de ser uma forma de expressar amor, sexo é uma fonte de prazer e saúde, e pode ter como finalidade a reprodução humana. De uma relação sexual pode sugerir uma gravidez que normalmente acontece se, durante o coito, o homem ejacular na vagina da mulher e se ela estiver no período fértil.

É comum alguns homens pensarem que a prevenção e a própria gravidez são um problema apenas da mulher. Afinal, é ela quem carrega o filho na barriga, que o pare e o amamenta. Eles querem sexo, mas não se comprometem com essas questões. Essa é a queixa de muitas jovens. Ter compromisso é uma questão de conscientização e do próprio desejo do jovem de assumir, com responsabilidade, a relação a dois.

Os pais que acolhem seus filhos, que os informam e lhes permitem um espaço para diálogos contam mais facilmente com a aproximação e abertura deles para falarem de qualquer problema. Uma gravidez indesejada é um transtorno na vida do adolescente. Com quem ele pode contar? Agora não adianta mais só prevenir, pois o fato está consumado.

O ideal seria que a adolescente procurasse adultos de sua confiança, principalmente o médico, para orientá-la. A jovem que não pode contar com o apoio dos pais toma outras medidas, às vezes desastrosas, como deixar de se alimentar para esconder a barriga justamente na fase da gravidez, quando precisa de uma dose boa de nutrientes. Em desespero, recorre a conselho de amigos ou pessoas que não têm conhecimentos corretos para orientá-la e a adolescente pode decidir por providenciar um aborto utilizando-se de métodos perigosos, ou mesmo fazê-lo contra sua vontade. Fatos como este afetam a saúde, a auto-estima e causam conflitos que poderão fragilizá-la mais ainda.

Há situações que favorecem a gravidez não planejada na adolescência, como:
*        Falta de informações e orientação sexual.
*        Abandono ou rejeição dos pais.
*        Abuso sexual ou estupro.
*        Influência de modelos exibidos pela mídia.
*        Falta de conhecimentos dos métodos anticoncepcionais e condições para adquiri-los.
*        Ficar livre da pressão dos pais através do casamento.
*       Tentativa de prender o namorado por causa do filho que espera.
*        Chamar atenção sobre si mesma.
*        Curiosidade.
*        Contrariar ordens familiares.
*        Carência afetiva. Desejo de que o bebê seja a fonte de carinho.
*        Desejo de buscar poder.

O aborto é uma questão polêmica. Algumas pessoas são a favor, outras, contra. A legalidade do aborto varia conforme as leis de cada país. No Brasil, o aborto é considerado um crime, salvo quando é feito para salvar a vida da gestante ou quando a gravidez se deu pelo estupro.

As pessoas favoráveis ao aborto defendem, entre outras coisas, a liberdade e o direito da mulher de decidir sobre a interrupção da gravidez indesejada. As pessoas que são contra o aborto afirmam que a vida tem início no momento da concepção.

Em alguns casos de gravidez não planejada, é comum os adolescentes acreditarem, de forma simplista, que o aborto é uma solução. Pelos depoimentos, podemos observar que há estresse e culpa na grande maioria das jovens que abortaram.

Calcula-se que, no Brasil, sejam realizados em torno de 1,5 milhão de abortos por ano, sendo grande parte de adolescentes. Algumas das causas que justificam esse ato índice é a falta de uma política governamental de planejamento familiar, de educação sexual nas escolas e na família. A falta de informação ou de dinheiro contribui para que a maioria da população não tenha acesso aos métodos anticoncepcionais, como DIU, pílulas, camisinha e outros recursos.

Quando as adolescentes tentam fazer um aborto sem acompanhamento médico, colocam em risco a saúde e suas próprias vidas. Portanto, por esta e outras razões, é importante que saibam o que estão querendo com a relação sexual. Ter filhos? Busca apenas do prazer? Sendo assim, ambos devem estar de acordo e a par dos cuidados necessários. Por uma questão de respeito a si próprio, à outra pessoa e a um terceiro, possivelmente um bebê, é preciso que cada um tenha consciência do que está querendo. A partir daí, é conveniente que dialoguem e cheguem a uma conclusão mútua. Se querem ter relações sexuais e não querem ter filhos, que pensem em métodos anticoncepcionais. Esta é uma forma de prevenir.

É certo que a exigência tradicional de virgindade feminina até o casamento, a desmoralização e estigmatização das não-virgens têm se alterado significativamente.

A concepção moderna de amor e de eleição pessoal e subjetiva do amado, associada à difusão televisiva de uma imagem extremamente sexualizada da mulher moderna, passou a comportar a legitimação social e familiar de certos contatos corporais entre os casais de namorados como abraços, beijos e carícias arrojadas que podem ser trocados publicamente. Ser atraente e sensual, capaz de despertar o interesse do outro sexo, tornou-se um importante valor para a identidade feminina, tal como a sexualidade difundida pelos meios de comunicação de massa. A exibição de erotismo e sensualidade associa-se à interdição do exercício pleno da sexualidade por mulheres solteiras.

Como se formula a identidade feminina adolescente dentro desse quadro de ambigüidades? De que forma mulheres adolescentes estruturam sua subjetividade com relação a normas e valores contraditórios?

Um número cada vez maior de mulheres adolescentes urbanas tornam-se grávidas sem o desejarem.

“- Se a garota carregar o preservativo na bolsa, tira a idéia de que ela transou por não resistir ao calor da paixão, de que foi sem querer…” Selma, 15 anos

Enquanto que para o homem adolescente a exploração do interesse heterossexual é considerada normal e desejável, para a mulher adolescente há uma associação entre erotização que estimula a jovem a ser sedutora, feminina e simultaneamente ao platonismo, procrastinando-se o exercício da sexualidade para o momento da descoberta do grande amor ou do homem com o qual ela queira casar. Desta forma, enquanto é socialmente admitido ao homem adolescente experimentação e erro de atitudes sexuais, vistas como coisas da idade, nos quais ele pode treinar e experimentar sua criatividade, à mulher adolescente multiplicam-se os discursos e práticas que condicionam e treinam sua aptidão ao papel que deve, assumir na sociedade: mãe e esposa, isto é, reprodutorae não produtorada vida e do social.

Vejamos um depoimento de uma adolescente, que aqui chamaremos de Maria. Ela tem 15 anos e define adolescência assim:

“-…Adolescência… Deixa eu ver… Pra mim é um momento na minha vida, um momento que você começa a se descobrir… Começa a querer pensar com a sua cabeça, viver suas experiências, seja certo, seja errado, quebrando a cara… Um tempo que você pode aproveitar mais a vida, se divertir, estudar…”

A identificação com a mulher independente e profissionalizada, fornece o principal modelo de identidade adulta, cuja base a adolescente se vê nessa fase da vida e na qual anseia manter ou ampliar a relativa liberdade alcançada com relação à família, sem abrir mão da proteção e sustentação que ela proporciona.

Dados da Pesquisa Nacional sobre Saúde Materno-Infantil e Planejamento Familiar, no Brasil (2005), apontam a idade de 14 anos como aquela em que a ocorrência do primeiro intercurso torna-se significativamente alta entre as mulheres.

A passagem da infância à adolescência dá-se através de um processo descontínuo e a ocorrência de gravidez não programada, especialmente quando seguida de maternidade, pode ter ação disruptora. Isto é tanto mais provável quanto mais jovem for a adolescente e quanto menos o seu meio sociocultural e a sociedade em geral, lhe forneçam modelos passíveis de permitir identificação.

Muitas adolescentes negam a gravidez, até praticamente o momento do parto, e especialmente na primeira gravidez.

A gravidez é o ponto final da adolescência, enquanto aspiração de participar e de construir uma identidade base para a identidade adulta de mulher relativamente emancipada.

A importância da televisão e da mídia em geral na difusão e na produção de sexualidades e identidades é percebida de forma perspicaz. Todavia, muitas jovens não têm análise crítica suficiente para diferenciar as fantasias do amor e da sexualidade, da realidade de seus contextos de vida. Confusas, muitas vezes idealizam no amor sexual a resposta para seus problemas e frustrações da vida.

Alguns adolescentes dizem que em casa o pessoal é meio antiquado, que os pais são tradicionais, outras afirmam que se uma menina transar com o namorado é normal, e se uma menina engravidar antes de casar também não é nenhum fim do mundo! Que é melhor que outras coisas, como por exemplo, se drogar.

Há outros depoimentos, como o de Cecília, de 16 anos que liga o sexo ao amor, justificando a falta de cuidados com doenças sexualmente transmissíveis e/ou gravidez.

“-…Quando você dá por amor… tá consciente, não vai se arrepender depois… Então, o fundamental é o amor? Só por desejo você não… O troço também é bom pro corpo, bom pra mente. Mas… Assim, eu estava falando no caso de… Num outro caso… No caso de… De viver a dois, entende? Pra se completarem como casal, entende? O homem quanto mais transa, mais ama e a mulher, quanto mais ama mais transa”.Cecília, 16 anos.

Outra adolescente fala da não premeditação do sexo:

     “-…Eu sempre tentava evitar, não deixar as coisas chegarem lá… Mas eu gostava dele, né? As coisas foram indo, foram indo, até que aconteceu: Enquanto você tá moça, você tenta evitar um pouco… Mas sabe como é homem: sempre insiste mais um pouco… Até que consegue o que quer…” Carla, 15 anos.

A inocência tem sido por vezes denominada de ingenuidade biológica, na medida em que a adolescente alega desconhecer ou não toma em consideração seus conhecimentos da sexualidade e da reprodução ao iniciar vida sexual ativa. Essa ingenuidade apesar da presença de grande e real desconhecimento de fatos elementares do ciclo reprodutivo feminino, especialmente entre as adolescentes dos estratos pobres, aponta para o não-sancionamento do intercurso sexual.

A não premeditação do sexo é entendida pelas jovens como evitação de desmoralização sexual.

      “-…Se uma menina é pega pra cristo, ih! … Aí é fogo. Porque os próprios caras só ficam a fim dela pra poder falar; não tão a fim de um relacionamento, entende? São os rapazes que “queimam” as meninas com quem eles saem?. As mulheres são ainda piores. Começam com a fofoca…” Marilda, 15 anos.

Uma vez que a necessidade de não premeditação se mantém, a perda da virgindade não sanciona o exercício da sexualidade exceto, quando se dá dentro do casamento.

Há, ainda, a necessidade de inscrever a vida sexual ativa num dispositivo de moralização, evitando a adolescente, de ser culpabilizada ainda inseguras, após perderem a virgindade e ao iniciar uma nova relação, recusam-se, a manter encontros em motel ou a ter relações sexuais na casa de seu namorado ou de seus pais. Os intercursos sexuais entre os dois ocorrem, durante um certo tempo, em locais e circunstâncias fortuitas, o que permite a ela e ao namorado, percebê-los como não premeditados. Isto pode durar algum tempo até que o amor dos dois legitime o início da vida sexual mais livre e talvez com fantasias de que com eles não vai acontecer nada de DSTs ou gravidez..

Vários são os elementos de normalização a serem examinados. Como o amor, que é visto como fator de perda da razão, de ilusão, de ingenuidade ou perda de controle, não premeditação da atividade sexual, cessão antes que paixão, paixão como sinônimo de descontrole, exigüidade de número de parceiro e fortuidade das circunstâncias em que se deram os intercursos sexuais. Já Michael Foucault (1982) observava que o discurso que o indivíduo é capaz de ter sobre si mesmo, adquire efeito, não em quem o recebe, mas naquele que é extorquido.

O amor pode reduzir-se a amor-concessão, o que permite uma demissão da própria sexualidade, reduzindo-a à sexualidade do parceiro. A gravidez e a maternidade tendem a assumir um caráter quase na ordem natural das coisas, para a subjetividade dessas adolescentes. O uso de contracepção desmoralizaria sua vida sexual, mesmo depois do desvirginamento, uma vez que implicaria consciência e premeditação, antes que cessão e sedução. Vejamos este depoimento:

     “-…Eu nem queria, ele é que procurava sexo comigo. Eu não queria perder minha virgindade, mas ele foi me levando no bico. Daí eu nem pensei em pílula… que nada! Eu sempre dizia não, mas ele prometeu que a gente ia casar. Eu gostava dele, tinha amor por ele, né? Tanto é que depois eu chorei, mas não adianta chorar o leite derramado, né? Quando a gente gosta acaba se iludindo com aquilo, acredita no amor do homem, aí, já viu! Que casar que nada!”. Célia, 14 anos.

Algumas jovens admitem, cautelosamente, a curiosidade sexual, mas que cedem ao intercurso sexual por amor:

     “-… No fundo, no fundo… eu tinha muita curiosidade… Ia doer? Ia sangrar? Todo mundo fala tanto que é bom…” Carla, 14 anos.

Existe uma relação entre menarca, primeiro intercurso e primeira gravidez entre adolescentes de baixa renda. A média de idade na menarca encontrada é de 13 anos, e a idade média do primeiro intercurso sexual, 15 anos.

O principal sentimento referido com a menarca é de dubiedade: por um lado, incômodo, estorvo, nostalgia da infância; por outro, orgulho e descoberta, sensualização.

Adolescentes, que vivem em famílias e meios onde gravidez precoce é freqüente, manifestam maior interesse pela maternidade e menor desejo de abortar.

A reação positiva do namorado é fundamental na opção pela maternidade. É a coabitação conjugal que irá moralizar sua gravidez solteira e não a maternidade. A gravidez, uma vez tornada pública, isto é, uma vez conhecida pela família e pela vizinhança, altera irremediavelmente sua identidade e posição sócio-familiar, ainda que ela houvesse se submetido ao aborto. Assim, o aborto só é considerado útil na medida em que a gravidez não se tornou pública e ele pode adiar a mudança de identidade de menina a mulher.

Mas relação com o parceiro é fundamental na opção pela maternidade ou desejo de abortar para a grande maioria das informantes.

     “-… Quando eu saquei que estava grávida nós ficamos primeiro em pânico. Depois , aos poucos a gente foi se alcançando… A gente tinha muito medo, mas também tinha uma coisa legal entre a gente, só nós dois sabendo, tendo um problema comum pra resolver… Tinha uma… Sabe? Uma… cumplicidade? É, isso, tinha uma cumplicidade gostosa…” Regina, 15 anos.

A difusão de valores modernos, como maternidade retardada, trabalho extralar, estudo e melhor qualificação profissional para mulheres, percepção do amor em lugar de maternidade como base de casamento, escolha individual e subjetiva do parceiro, deve, em maior ou menor grau, entrar em conflito com a normalização fornecida pelos modelos mais tradicionais. É preciso que as famílias possam estar em constante discussão sobre essa dinâmica toda, para melhor educar-se e a seus filhos, especialmente no que se refere à sexualidade.

Outra grande questão de saúde pública em relação aos nossos adolescentes, é a Aids. Na conferência sobre a Aids realizada em março deste ano no norte da Alemanha. em Bremen, relatou-se um número aproximado de 40,3 milhões de pessoas infectadas no mundo, mais da metade na África. Isto considerando-se apenas os casos registrados. Esta Conferência estabeleceu prioridades, junto ao presidente do Programa das Nações Unidas contra a Aids (UNAIDS) Peter Piot. Entre elas garantir que esses 40,3 milhões de pessoas com Aids tenham acesso a tratamentos adequados, vidas sem discriminação e a luta para retirar, da epidemia, todos os tabus que a caracterizam. Dessas 17,5 milhões são mulheres e 2,3 milhões em crianças abaixo de 15 anos.

Quase metade dos novos casos de Aids no mundo ocorre entre jovens com idade entre 15 e 24 anos. Desses jovens, metade são do sexo feminino.

     “-..Se a gente é gorda e negra, não arruma namorado bacana não. Todas as meninas contam quem “ficou “ com elas. A gente só tem cara bacana que fica com a gente, se a gente fizer mais coisas com eles. Não é só beijar na boca não. E se falar de camisinha, pode espantar os caras…” Marlene, 16 anos.

Testar mulheres grávidas rapidamente, é um dos pontos chaves no tratamento e prevenção da Aids no que se refere a prevenção vertical de mãe para filho, pois em nosso país como na África a Aids está feminizada e inserida na violência contra a mulher.

Sabemos que a transmissão sexual é responsável por 85 por cento dos casos de Aids e que usar o preservativo é 10000 vezes mais seguro que não usar. Muitas vezes o não uso de preservativos está ligado ao uso abusivo de álcool e outras drogas, ou aos chamados namoros firmes, onde os jovens justificam que seu uso pode gerar desconfiança quanto à fidelidade do casal. Outras jovens, seguindo padrões de conjugalidade aprendidos com suas mães e avós, abrem mão do preservativo por medo de serem abandonadas ou maltratadas física, moral e psicologicamente por seus parceiros. Também o fato de estarem apaixonadas, faz com que essas jovens criem falsas imagens de segurança. Aliás, como suas mães o fazem em relação à fidelidade no casamento.

Outro fator de vulnerabilidade dos jovens ao HIV, é a mídia que faz grande apelo erótico ao adolescente, unificando padrões de comportamentos sexuais como algo não planejado, carregado de mitos e preconceitos, como por exemplo, de que o uso do preservativo pode dificultar a ereção e o desempenho sexual.

No Brasil estima-se que 600 mil pessoas sejam portadoras do HIV e que 30 milhões estejam infectadas por alguma doença sexualmente transmissível. Este quadro é visto em pessoas a partir de 14 anos de idade, especialmente em pessoas suscetíveis à infecção, adoecimento e morte pelo HIV, por vulnerabilidades que envolvem: baixa auto-estima, falta de informação sobre riscos à saúde, sentimentos de exclusão, baixa escolaridade, dificuldades em acesso rápido a serviços de saúde, intolerância à diversidade sexual, especialmente relacionadas à orientação sexual, questões de gênero, mitos e tabus sobre a sexualidade: direitos reprodutivos e violência sexual doméstica, entre outros.

A representação do brasileiro como povo altamente sensual e sexualizado, remonta às primeiras representações dos exploradores e descobridores do país, onde se geraram, por descontextualizações culturais, racismo e ordem moral judaica cristã, os primeiros mitos do brasileiro como libidinoso .e desinibido. A interação sexual com mistura das três raças: o índio, o negro e o europeu, facilitou a crença de que o ambiente em que começou a vida brasileira, foi de intoxicação sexual. Herdamos distinções entre formas de expressão sexual legítimas e ilegítimas, organizadas em torno da monogamia e da procriação, onde sexo fora do casamento heterossexual é pecado, que mantém no silêncio as práticas sexuais de cada um, revelado pela expressão popular de que “entre quatro paredes tudo pode acontecer” E, ainda a manutenção de conceitos de excitação sexual, prática erótica, diversão e agressão, conceitos estes, ligados num único complexo simbólico em que há um sistema de referência erótica no qual as transgressões         sexuais masculinas, ainda são implícita e explicitamente contextualizadas como positivas e esperadas, na manutenção de uma virilidade masculina “naturalizada”.

Com o advento dos anos sessenta e da pílula anticoncepcional, época de possibilidade de disjunção entre o sexo erótico e reprodutivo no Brasil e no mundo, a possibilidade da atividade sexual irrestrita significava a promessa da democracia, a quebra da hierarquia e da dominação do modelo patriarcal herdado.

Nesse cenário surge a Aids na década de oitenta, enfatizando a homofobia enquanto definida como peste gay, sendo a doença da moral quando sugeria os grupos de risco entre gays, prostituas e promíscuos e deixando abertas as entradas para a chamada sagrada família, contaminada por atitudes de vulnerabilidades em mães, santificadas personagens da nossa sociedade, que se calaram das DSTs mesmo após o surgimento da penicilina.

Temos então, nas questões de gênero, de relação homem-mulher, de duplo padrão de moralidade, de religiosidades dissociadas das realidades das vidas de seus fiéis, dos mitos e tabus da sexualidade ainda invisível para se esconder dos pecados e acusações de anormalidades; das fugas da morte como realidade controlável pela medicina moderna; de longevidade e promessas de eterna juventude da indústria capitalista, da crença de que a chamada terceira idade traz imunidade da santificação do amor romântico que inibe a objetividade, da ilusão de que somos livres sem responsabilidades e auto-estima; os elementos co-fundantes da Aids Imaginária, que nos coloca, brasileiros e cidadãos do mundo, de crianças a idosos, como “soro interrogantes” (sem saber se somos HIV positivo ou negativo, porque raramente fazemos os testes), vulneráveis à infecção do HIV em moldes similares aqueles que testemunham a dizimação de várias populações africanas.

Tenho desenvolvido dissertações         e teses de mestrado, doutorado e pós doutorado com as denominadas pesquisas-ação, onde a pesquisa se dá concomitante a intervenções nos grupos pesquisados, onde a observação participante da pesquisadora é considerada, na luta contra a chamada “africanização” da Aids no Brasil. Estes trabalhos têm sido realizados no Núcleo de Família e Comunidade do Programa de Pós Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em parcerias com diversas instituições e ONGs como a F&z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde de São Paulo, A Associação Saúde da Família de São Paulo, a AIDSCAP Rapid Response Fund, a Elton John Aids Foundation, o Rotary Club do Brasil, especialmente o do Butantã, entre várias outras do setor público e privado do Brasil.

O Sociodrama Construtivista da Aids é um método de psicoterapia e educação psicosocial grupal que propõe a co-construção de novas verdades, legitimadas e desconstruídas pelo grupo em ação, na busca de saídas factíveis para as realidades psico-sócio-culturais do mesmo, embasadas no sistema de crenças e valores aprovados pelos mesmos. O terapeuta e/ou o educador sociodramatista construtivista participa do grupo como um elemento a mais, na busca dessas saídas e resoluções, enquanto facilitador dessa desconstrução de mitos, tabus e crenças, pela proposta da dramatização de personagens sociais, representativos no micro, no macro grupo social, em seus aspectos co-conscientes e co-inconscientes sobre os temas trabalhados em conjunto.

Atualmente esta luta consiste num novo Projeto que pretende alcançar cerca de 15 mil adolescentes         carentes de 11 a 20 anos de idade, das quintas às oitavas séries do Ensino Fundamental e das três séries do Ensino Médio, da periferia do Butantã.

A nossa hipótese é de que criados e oferecidos estes espaços de legitimação das subjetividades destes adolescentes e da intersubjetividade pela vivência grupal,         os mitos, valores e crenças que dificultam e/ou impedem atitudes sexuais de menores riscos e vulnerabilidades ao HIV/Aids e à gravidez precoce, sejam modificados através de maiores sensibilização e conscientização de recursos pessoais, que os ajudem a resignificar comportamentos preventivos como força pessoal, de auto estima e de “empoderamento” contra esta enfermidade.

Famílias, escolas e adolescentes: são o tripé para a saúde sexual.

 

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Foto1Ana Maria Fonseca Zampieri
anamfzampieri@uol.com.br
São Paulo
– São Paulo – Brasil
Doutora, Mestre e pós doutoranda em Psicologia Clínica. Psicóloga. Psicodramatista. Sexóloga. Terapeuta de Casais e Famílias. Autora dos livros: Sociodrama Construtivista da Aids (Ed Psy, Campinas, 1996) e Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade. A prevenção do HIV e da Aids no Casamento. (Editora Agora, São Paulo, 2003) Coordenadora de Cursos de Pós Graduação em Terapia de Casais, Sexualidade e Psicodrama em São Paulo , Brasília e Goiânia. Consultora de Programas de Prevenção de Aids e Violência Sexual em diversas ONGs do Brasil e do exterior.
Rua Joaquim Floriano 466/cjto 2108 Cep: 04534-002
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O Casamento e a Vida Familiar

Uma sociedade é tão adequada quanto lhe permite o estado emocional dos indivíduos que a integram. Elevadas e crescentes perturbações nos casamentos aumentam o número de filhos com conflitos e potencialmente menos preparados para a interdependência ontológica com o mundo.
A cultura e a família interinfluenciam-se constantemente e porque o homem está em essência no mundo, pode viver no amor e/ou na destruição. Nestas relações feridas emocionais visíveis e invisíveis são herdadas, reconstruídas ou ao longo das gerações.
Valores pessoais, relacionais, de cidadania, de ética e de justiça são transmitidos implícita e explicitadamente nessa transgeracionalidade. Há lealdades morais, filosóficas, religiosas, políticas e psicológicas onde as várias gerações das famílias assumem compromissos que poderão se constituir em dívidas ou méritos para as gerações seguintes.
Problemas conjugais não resolvidos, por exemplo, poderão constituir dívidas ou méritos para os filhos, seus futuros casamentos e os de seus filhos.

Nas relações conjugais e familiares, o liberalismo e o autoritarismo excessivos promovem endividamentos e desorganizações que se refletem nas relações implícitas e explícitas das gerações familiares.

Os amores possíveis no casamento, metaforicamente falando, são:
Aghape: o amor em projetos comuns na vida: filhos, matrimônio e carreira, entre outros.
Filos: é o amor do companheirismo, da amizade, do afeto e da cumplicidade.
Eros: é o chamado amor químico, da atração, da paixão, do sexo e do desejo.

Existe um ciclo de vida dos amores conjugais que tem crises previsíveis nos tempos modernos. Obviamente, isto é didático e as fases podem se sobrepor.
Fase 1: A paixão
Na fase da paixão,acontecem as escolhas co-inconscientes e co-conscientes de parceiros. O homem, habitualmente jovem está pleno de testosterona e no apogeu do desejo, de seu papel de sedutor. A mulher, cheia de estrogênios, está na sua plenitude reprodutiva e receptividade sexual.
Os biólogos estudiosos do casamento dizem que a feniletilamina é a molécula do amor. Está presente especialmente nos quatro ou cinco primeiros anos do casal a partir do momento em que se apaixonam.
Na paixão acontece em uma idealização do romance. Chamamos de relação eu – eu, a esse fenômeno onde a pessoa apaixonada vê no outro o que espera, maximizando as qualidades e minimizando os defeitos. Eros é o amor mais presente nessa etapa.
A crise previsível dessa fase é chamada de luto da paixão. Acontece neste momento de haver mais responsividade, menos romance, muito trabalho e desidealização romântica.
A relação eu – tu Fica aos poucos mais estabelecida, onde um enxerga muito mais o outro como ele é de fato e faz-se necessária a legitimação das diferenças.

A fase 2 é a chamada etapa de formação do casal conjugal, também carregada de ideais e expectativas sobre o que seja a relação conjugal. Os valores das famílias de origem manifestam-se com mais força.
Os amores eros, quente e aghape,compromissos, passam a co-existir com mais intensidade. Diz-se que sob a ótica hormonal, acontece o efeito ocitocina que produz busca de intimidades, onde a mulher quer mais romance, e o homem, mais sexo.
A crise previsível da fase 2 na formação do casal conjugal ocorre com os choques de expectativas um do outro, da vida, das facilidades e dificuldades encontradas na conveniência diária. O contato com a realidade se intensifica. É uma relação eu – tu, como já dissemos, onde podem existir algumas desilusões, e o contato físico, de carinhos, pode ficar menor. Nesse momento pode ocorrer a busca de filhos.

A fase 3 é a formação do casal parental, do casal de pais, quando surgem novos papéis de pai e mãe, além dos já existentes de marido e mulher. Os amores presentes são: eros, filos e aghape.
A relação que se estabelece é a eu – nós, ou seja, eu mulher ou marido mais seu cônjuge e seus filhos. Quanto mais maduro estiver o casal sobre o ponto de vista emocional mais facilmente conseguirão espaços para lidar com as diferenciações que existem, e mais facilmente serão superadas as dificuldades.
A crise previsível da fase 3 dá-se com os pequenos afastamentos onde o amor eros diminui, e os amores aghape e filos crescem. A chegada de filhos muitas vezes pode sobrecarregar o jovem casal que, preocupado com esta grande responsabilidade, pode ficar com pouco espaço e estimulação para o amor erótico.
A prolactina na etapa de amamentação, pode diminuir o impulso sexual da mulher. Choros de bebês, sono interrompido, preocupações e ansiedades novas poderão naturalmente estressar o casal.

A fase 4 é a de filhos adolescentes. Nessa etapa pode ocorrer a busca pro-ativa do orgasmo feminino. O homem estará mais envolvido sexualmente, mais aberto a intimidades e carinhos. A ocitocina é chamada o hormônio da super cola dos relacionamentos. São esperadas as famosas crises de meia idade com estresses característicos. É a fase de avaliação da construção do patrimônio familiar, da educação e saúde de filhos e, muitas vezes, de cuidados com os pais mais velhos. As crises previsíveis da fase 4 apresentam tendências a isolamento. Pode acontecer o chamado divórcio emocional no casal conjugal, quando eles ficam juntos mas com baixo desejo sexual, rotina e amor eros frio. Pode haver depressão e infidelidades sexuais, algumas vezes onde o marido se interessa por jovens de idades próximas às de seus filhos recém saídos do ninho.

A fase 5 que é a chamada da meia idade ou do ninho vazio apresenta uma revisão da vida. Podem surgir novos desafios que exigem apoio recíproco, para a menopausa e a andropausa do casal, dependendo se será com ou sem reposição hormonal, com maiores índices de saúde, bom humor e esperanças para novos alcances existenciais. Hormonalmente falando, o estrogênio diminui, há menor disponibilidade sexual e pode haver maior irritabilidade entre o casal. As ereções penianas do marido serão menos intensas e o casal deverá buscar novas maneiras de se relacionar sexualmente, com redescoberta da intimidade, de novas formas de orgasmos. Os homens podem ser os mais gentis amantes nesta fase. Cuidados com a saúde, além de novas sensualidades também podem ser conseguidos através de potentes e remédios da medicina moderna. As vivência aghape e filos poderão ser mais efetivas, com companheirismo excepcional.
A crise previsível da fase 5 pode ser dificuldade de envelhecer, busca de parcerias mais jovens, divórcios emocionais, infidelidades, e friezas no convívio conjugal.

A fase 6 do ciclo de vida do casamento, também chamada a fase de melhor idade pode trazer mais tempo para o lazer do casal. A mulher pode estar mais sensual e auto confiante. Os homens mais gentis e amorosos. O companheirismo do amor filos poderá estar em alta. “Não há um ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.” (G. G. Marques, 1982).
A crise previsível dessa fase 6 pode conter enfermidades debilitantes, disfunções sexuais, frustrações profissionais, aposentadorias injustas, afastamento da família e da vida social com perdas de estatus.
Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o melhor do que muitas vezes ganharíamos por medo de tentar.” (Sheakespeare).

Bons casamentos passam por crises do amor, períodos de abstinência sexual e algumas etapas de desesperanças. Isto não significa necessariamente a morte do amor. Pode haver sempre a busca de renascimento e reciclagens a cada fase citada
O amor romântico proposto pela mídia e por nossa cultura apenas, não basta! Os amores do casamento, reciclados e resignificados a cada fase são uma grande esperança para termos casamentos saudáveis e duradouros.

Nas relações conjugais e familiares os maiores riscos atuais são:
1. Terá tempo a humanidade de desenvolver hierarquias de valores antes que a superpopulação, a poluição e a tecnologia armamentista imponham emergências destrutivas?
2. De onde e como surgirão novos educadores?
3. Como serão ouvidos os seres humanos que não confiam em ninguém?

Os nossos grandes desafios são a construção de direitos humanos que redefinam valores, lealdades e ética nas relações entre pais e filhos, os adultos e os avós.

As pessoas que têm vieses positivos sobre as situações estressantes tendem a se dar melhor do que aquelas que têm uma percepção dura e uma realidade que pode ser depressiva, como uma enfermidade que ameaça a vida. Tais “ilusões positivas” mantêm a esperança diante da crise, permitindo que esses indivíduos usem todos os seus recursos para superar as dificuldades.
Confiança compartilhada entre os casais é fundamental na superação das dificuldades. Só agora a ciência está começando a entender a química da vontade de viver e dos esforços obstinados para se recuperar o máximo possível. É possível a dominar a arte do possível com iniciativa ativa e aceitação. Para sermos resilientes e capazes de superar as crises do casamento com crescimentos pessoais e familiares, precisamos fazer um balanço da nossa situação – desafios, restrições e recursos – e depois nos concentrar em extrair o máximo das nossas opções. São necessários tanto domínio ativo quanto aceitação. As crenças relacionadas ao domínio e à aceitação devem ser contrabalançadas. A resiliência requer aceitação dos limites do nosso potencial e do potencial de nossos cônjuges; avaliação e reconhecimento daquilo que podemos influenciar e o que não podemos mudar e, então, direcionar o maior esforço para o que é possível.
Os membros da família podem não conseguir controlar o resultado dos eventos, mas podem fazer escolhas e encontrar maneiras significativas de participar ativamente do processo de desdobramento dos eventos e englobar a crença em uma condição humana fundamental, com um conjunto de valores em prol dos quais nos empenhamos; a crença em um poder supremo; ou a crença em uma unidade holística com a comunidade humana, a natureza e o universo. Pode também incluir experiências divinas, que são sagradas ou místicas e difíceis de explicar na linguagem e nas imagens comuns. Viver assim é um convite à expansão da consciência e, com ela, à responsabilidade por si mesmo, pelo casamento, pela família, pela comunidade e, em fim, pela raça humana.

Foto1Ana Maria Fonseca Zampieri
anamfzampieri@uol.com.br
São Paulo – São Paulo – Brasil
Mestre e doutora em Psicologia Clinica. Pós-graduada em terapia de casais e famílias. Terapeuta sexual. Psicodramatista. Formação em E M D R. Escritora de livros sobre casamento e sexualidade na vida conjugal. Diretora de Ensino e Pesquisas da F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde S/C Ltda.

Fantasias Esquentam a Relação

CasalCom o tempo, a relação a dois tende a cair na rotina e pode esfriar um pouco. Nesse momento, as fantasias eróticas sacodem o marasmo e dão novo gás.
Soltar a imaginação é uma delícia em qualquer situação. Em pensamento, você pode viver coisas quase impossíveis, estimulantes, fantásticas, fugir dos limites impostos pela realidade. Claro que não dá para viver no mundo da lua. Mas realizar esse exercício vez ou outra pode ser proveitoso. É assim na vida sexual. Fingir que está transando com a enfermeira excita muito os rapazes. Imaginar que seu par é um intrépido bombeiro também pode levar a mulher à loucura. Sem censura, o sexo fica melhor.
As fantasias eróticas são realmente um combustível e tanto para esquentar a relação. “A rotina em um relacionamento amoroso pode levar o casal para um tipo de convivência em que os dois parecem mais irmãos do que amantes.” afirma a sexóloga e terapeuta de casais Ana Maria Fonseca Zampieri, de São Paulo.
Segundo ela, para fugir da estagnação, o amor precisa de reciclagem constante. Uma vida sem encanto e excitação perde o colorido. E as conseqüências podem ser desastrosas. Achando que a relação está fria e sem atrativos, seu par pode voltar a atenção para outro foco de interesse e o risco da infidelidade pode pintar no horizonte.
Dê asas à imaginação
Então, para não deixar a temperatura da relação amornar, solte a imaginação. “A imaginação é uma das formas de reciclar o relacionamento”, entende Ana Maria. Normalmente, as fantasias eróticas mais comuns, segundo elas, são aquelas que apontam para ações que quebram normas. “As coisas proibidas excitam mais”, diz ela.
Por isso, em geral, as fantasias eróticas mais comuns na cabeça dos rapazes é a de manter relação sexual com duas mulheres ao mesmo tempo ou ver a sua mulher transando com outro homem. As meninas se excitam ao se imaginarem no papel de uma mulher vulgar.
“Claro que imaginar essas coisas é muito excitante, mas concretizá-las pode significar o fim do relacionamento”, afirma a terapeuta. Trata-se, claro, de brincar com essas fantasias. Entre quatro paredes, a garota pode colocar aquele modelito extremamente vulgar apenas para transar com o seu gato. E ele pode fingir que é um outro cara.
Sem timidez
Outra coisa que funciona bastante é conversar sobre as fantasias que povoam sua cabeça e a de seu amor. Narrar para o outro, sussurrando no ouvido, as loucuras que passa por sua cabeça no momento da transa pode ser altamente excitante para ambos.
Se vocês não estão acostumados com isso, pode ser que no primeiro momento pinte um certo constrangimento. “Com o tempo, cultivando a intimidade e a cumplicidade, o casal acaba vencendo a timidez”, afirma Ana Maria.

Foto1Ana Maria Fonseca Zampieri
anamfzampieri@uol.com.br
São Paulo – São Paulo – Brasil
Mestre e doutora em Psicologia Clinica. Pós-graduada em terapia de casais e famílias. Terapeuta sexual. Psicodramatista. Formação em E M D R. Escritora de livros sobre casamento e sexualidade na vida conjugal. Diretora de Ensino e Pesquisas da F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde S/C Ltda.